Capítulo XX – Marcas no pescoço

Muita dor de cabeça e a boca seca. Ele não sentia mais nada, além disso.


- Água... – Balbuciou.

- Ah, então acordou?

- Onde estou... O worgen... – Sua voz estava trêmula.

- Calma princesa... Sem auê... Sem pressa. – A voz era de White, que agora lhe servia a água pedida, para logo depois sair da cabana.

Ele revirou o corpo na cama, e sentiu muita dor. Toda a extensão de suas costas estava lacerada, e algumas de suas costelas estavam quebradas. Seu corpo fedia, e algumas partes ainda estavam sujas de sangue seco. Queria um banho, mas sabia que ali não iria conseguir, não naquelas terras de água podre e amaldiçoada.
A noite fria estava apenas começando, e uma luz bruxuleante iluminava parcamente o local onde ele estava deitado. O vento gelado soprava com intensidade lá fora, e a cabana de peles parecia que ia ceder a todo instante.

Uma vela apagou-se antes de todas as outras, e ele pensou em levantar-se para apagar o restante e ir dormir, mas isso não foi necessário, pois as velas apagaram-se sozinhas antes que ele pudesse esboçar qualquer reação. Em suas costas, um dedo passeava levemente.

- Olá meu querido.

- Você... Como chegou aqui, sem que eu percebesse?

Ela tocava cada parte do corpo dele, e o toque frio regenerava seus ferimentos ocasionalmente. Era uma sensação de conforto que nenhuma outra Banshee poderia oferecer.

- Sou a rainha dos mortos, a dama sombria. Não é nada estranho que eu possa caminhar silenciosamente nas sombras se assim o desejar.

- Não, não é nada estranho, mas o que você quer?

- Você... Outra vez.

- Pensei que fosse algo com propósito, e não uma relação que envolvesse prazer.

- Também pensei, mas no fim, não foi. – Ela beijou-lhe os lábios e despiu-se de uma forma rápida, quase que imperceptível aos olhos comuns. Felizmente, ele podia enxergar tão bem nas sombras quanto qualquer elfo.

Agora, com ele de costas, ela ajeitou-se por cima dele e começou a beijar seu torso, curando os hematomas sutilmente enquanto ecoava uma canção sem usar seus lábios, de melodia triste e vagarosa que por vezes subia de tom arrepiando os pelos de seu parceiro. Ela abaixou-se um pouco, de modo que seus seios tocaram as costas dele, que surpreendeu-se mais uma vez. Como uma carne morta há tanto tempo podia conservar-se tão macia e atraente?

Ele virou-se e assumiu o papel dominador, tocando os seios que tanto lhe atraíram de modo feroz, enquanto beijava-lhe de olhos abertos, para encarar a imensidão daqueles olhos vermelhos. Ela sibilava de forma sutil, fazendo com que os tons de sua canção demonstrassem o prazer que sentia a cada toque. Seus braços níveos acariciavam o corpo de seu parceiro como os de uma mulher e não mais como a Rainha que era. Ela estava entregue ao prazer e havia esquecido tudo o que antes lhe importava

- Você não deveria fazer isso.

- Isso o que? Foi você quem começou essa história toda.

- Você não deveria ser tão apaixonante. Isso pode arruinar meus planos.

- Pense nestas coisas antes de provocar a virilidade de alguém.

Um beijo selou o diálogo entre os dois, enquanto ele abraçava o corpo dela e iniciava a cópula de forma gentil e dominadora. Ela não poderia prever que ele se manifestaria assim, da outra vez deixou-se levar por ela e quase não esboçou reação. Agora era um animal que a colocava de quatro e forçava a relação a um nível de prazer inimaginável.

Sylvannas gemia como nunca antes havia feito em sua vida. Jamais imaginara-se tendo prazer depois de sua transformação, e antes disso sequer provara os lábios de um homem, tendo dedicado sua vida ao reinado de Quel’ Thalas. Agora era uma fêmea submissa e prazerosa. Sentia tudo o que antes havia sido relegado a segundo plano e adorava sua nova condição.

O gozo não demorou a vir e ambos caíram para os lados da cama, exaustos. Ele estava completamente curado, e ela havia modificado em partes os seus pensamentos a respeito da sua condição de vida forçada.

- Estou sonolento. – Ele disse

- Isto é comum, você passou por um processo de regeneração de mortos-vivos, não há muito que ficar espantado.

- Você e suas surpresas. Está me transformando agora? Eu já devo ter a peste Worgen em meu corpo, ser elfo, worgen e morto vivo não é algo tão comum.

- Não, você não terá nenhum dos duas condições, somente a sua. Eu tornei você imune quando deitamo-nos pela primeira vez.

- Interessante, agora, quero dormir.

- Não me encontrará aqui quando acordar. Vim somente para lhe avisar que sua presa não estará mais contigo quando acordar. Levarei o Worgen comigo e você deverá encarregar-se de comunicar isto a Gallywyx. A partir de agora você é meu rei, e eu começarei o plano para dominar Azeroth.

- Sério? Ah... Que seja, eu preciso dormir. – Disse ele sem pensar na gravidade de sua concordância.

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Depois de muito tempo, retornei. Um pouco mais erótico do que devia, mas era necessário, espero que gostem!


Capítulo XIX - Grilhões

Dia 11, Manhã, Ruínas de Guilneas

Não havia mais suor em seu corpo para expirar, a tensão havia atingido o limite, e todo o seu foco estava esvaindo de maneira que, a cada seta disparada, tornava-se mais difícil concentrar a mira e retesar seu arco de teixo para lançar um outro projétil.

- Miseravi...

Clay, por sua vez, estava cada vez mais ansioso. A espera tornava sua fúria maior, e ele particularmente não havia visto sua fera interior tão insana assim anteriormente.  Tudo que se passava ao seu redor lhe inspirava raiva. O movimento dos esquilos era perfeitamente audível, o som dos carneiros lhe desviava a atenção e o barulho sacolejante dos ossos renegados que patrulhavam as áreas a algumas milhas dali soava como pedras que impediam os seus sentidos auditivos de localizarem o seu oponente.

Não havia como contar com o olfato, assim como não podia contar com a visão. Tudo que restava a ambos era a paciência e a audição aguçada.

O sol, implacável e animado com a brisa marinha,  já havia despertado a algum tempo e seria um aliado aos dois, caso seia raios refletissem o mínimo de brilho.
E no meio desse círculo de morte, como prêmio a ser disputado, o corpo de Siegrfried repousava, mas ninguém saberia dizer se era definitivamente, até que todo o ato estivesse terminado.

- Grrrr... - Rosnou o Worgen.

A reação veio alguns segundos depois em forma de disparo, ignorado por Clay, que saltou ao encontro do projétil, recebendo-o propositalmente no antebraço esquerdo, para logo em seguida, cair no mesmo galho de árvore que White se encontrava.

- Eita bicho endiabrado! - Foi o que gritou o caçador antes de cair no chão, com a fera por cima de si.

O Worgen tentou abocanhar-lhe o pescoço, mas a mão do caçador, já havia previsto o movimento instintivamente, e com ela, seu arco veio juntar-se as presas que logo despedaçaram a arma. A segunda mordida estava sendo projetada nos confins da mente insana do lobo, porém o  troll agiu primeiro outra vez e com uma de suas machadinhas, ele rasgou as costas de seu oponente, que cravou ainda mais as garras em seu ombro para tentar conter os seus movimentos

Clay Greymane estava adorando toda aquela disputa. Seria aquele troll capaz de derrotá-lo? Teria ele o descanso reservado aos humanos ou a fera venceria e os dois correriam ensandecidos mais uma vez?

Pelo visto, a fera estava dominando o combate. White havia tentado bloquear mais uma de suas mordidas com uma arma, porém, o lobo previu o movimento repetido e cravou seus dentes no punho do caçador, virando a cabeça num angulo demoníaco e praticamente impossível para qualquer animal daquela compleição.

- Uaaaaaaaaiiiiiii! Diabooooos!... Aaaarghhhh! - Seu grito ecoou por toda a região.

A dor era insuportável, e de repente seus membros deixaram de obedecer aos comandos enviados por sua mente, deixando o corpo entregue aos sádicos golpes do lobo. Alguns segundos depois, ele já não sentia mais dores, embora a cena de Clay lacerando seu peito em busca de seu coração ainda era perfeitamente visível.

Paz. Era isso que sentia agora. A dor estava indo embora e a paz estava chegando.
Seu peito teimava em regenerar-se de uma forma assustadora, que irritava o lobo, mas seu espírito já havia desistido de lutar. Sua esperança havia se tornado escuridão. Felizmente ele morreria olhando o sol.

O sol de Azeroth... Tão forte tão diferente do Sol de Draenor. Qual havia sido a última vez que ele havia visto o sol pálido em Nagrand? Não importava... Ele tinha o sol de Azeroth... Aquele sol com pelos brancos balançando e se movendo velozmente enquanto brilhava. Pelos? Que ideia absurda sol não tem pelos. Então aprumou sua visão para detectar o que era aquilo, mas o diabo do worgen o impedia. Empurrou a cabeça de seu oponente em um último esforço e então conseguiu ver.

E Clay também viu.

*  *  *

Sua investida removeu o lobo de cima do trol, com uma fúria incontida.  O ímpeto de suas atitudes provinha do coração que agora bombeava uma intensa quantidade de sangue para mover músculos e garras e fazer com que sua sede de morte fosse aplacada.

O salto o havia deixado ao lado do troll, e agora, um no salto o havia colocado ao lado do worgen que, levantava-se tentando entender o acontecido. Ele por sua vez apoiou-se em suas duas patas traseiras e ficou ereto, para logo em seguida desferir um golpe que derrubou o lobo no chão, acompanhado de outro que o comprimiu contra a terra batida.

Sua visão voltou-se para o troll, e ele entendeu que estava na hora de sair daquele corpo, e deixar que a natureza fizesse seu trabalho.

- Uuuuuurghhhh! - Urrou, antes de socar mais uma vez o peito do seu oponente.

E sua alma começou a flutuar lentamente para fora do corpo, enquanto o urso cravava suas garras no peito do worgen, curiosamente da mesma maneira que a vítima havia lacerado o troll, alguns instantes atrás.

*  *  *

Levantou-se com o corpo maculado em vários pontos. Seus ferimentos, antes permeados por uma tonalidade rósea líquida, agora estavam escorrendo um líquido negro que contribuía para a pasta rubra de sangue e terra que empesteava a área machucada. Ele estava necrosando e sentia uma dor de cabeça insuportável, mas não era hora de pensar naquilo. Haviam outras prioridades que uma simples cefaléa.

Abriu sua algibeira e procurou por alguns ingredientes que sempre carregava para emergências como aquela. Preparou uma poção do Sono sem Sonhos, um Extrato de Gromsblood e duas Poções de Cura Voláteis. Era preciso salvar o amigo, mas antes disso precisava salvar a si próprio.

Caminhou até White, e encontrou o amigo ardendo em febre. Aquilo significava agonia extrema de um troll. Sem perder muito tempo, virou a ampola com o extrato da erva demoníaca para dentro da garganta do amigo.

- Saúde, meu amigo! Por Quel' Thalas e Pela Legião da Morte! - Disse ao entornar uma das ampolas de cura volátil, que agiu quase instantâneamente, fechando lhe as feridas por dentro e impedindo a necrose de avançar.

White, reanimado pelo extrato de gromsblood, contorcia-se no chão, enquanto sua pele assumia uma tonalidade rubra.

- Levante-se meu amigo. A batalha está quase findada, mas ainda não acabou. Bolthar não irá aguentar muito mais.

- Tu me deu sangue de demônio? - Disse o troll em tom de espanto.

Siegrfried sorriu, enquanto despia a ombreira estracalhada do ombro já cicatrizado. Graças ao amigo, ele havia completado mais uma receita em seu Grimório de Alquimista. O extrato de Gromsblood reanima pessoas desacordadas e concede força e velocidade, o que de certa forma está interligado aos poderes que Mannoroth associou a Grom Hellscream, muito tempo atrás. Talvez pela idade das ervas, o efeito tenha se tornado temporário, mas seriam necessários outros testes.

- Fique calmo, logo o frenesi irá passar. Agora assista. Chamei uns reforços animais, e outros nem tanto.

- Mas porque tu tá sem camisa?

- Porque... Bem, apenas observe.

Uma transformação começou a se operar no amigo, e seus braços, antes delicados e finos, começaram a engrossar e encher de pelos. Seus pés criaram garras, e elas cravaram-se no chão.
Em pouco tempo, o elfo havia se tornado uma versão grotesca de si mesmo, com partes lupinas, mas nada tão acentuado como a fera que enfrentavam.

White diria que aquiloq foi estranho, se não tivesse sem impressionado mais ainda com o que veio a seguir.

Um enorme lobo cinzento saltou dos arbustos, como se houvesse silenciosamente esperado aquele sinal. E juntos ambos precipitaram-se em direção à presa.
Como que acompanhando o lobo, uma águia singrou os céus, e com seu som característico, irrompeu em bicadas e ataques rasantes para cima do animal encurralado.

- Eita... - White estava surpreso.

A surpresa no entanto não conseguiu atenuar a dor que ele sentia, assim, improvisou uma fogueira, e cauterizou seu punho, sem pensar na dor que sentiria ao queimar sua ferida.

- A cavalaria chegou troll. Falcatruas, auxílio e muito, mas muito dinheiro. É o que buscamos aqui.

White olhou para seu lado e encontrou Chris, sentado em uma miniatura grosteca de automóvel, provavelmente produto da engenharia goblínica, e extremamente fedido.

- Q... Quando tu chegou?

- Ah... Junto com os animais de seu amigo ali ó. Eu e meus chapas demoramos alguns instantes para recolher as peças da jaula, que tínhamos em nossa bagagem, e estamos montando ela agora. Nem um elemental de água poderia escapar dessas barras.

- Hum... Tanto auê, e porque vocês não prendem logo o dito cujo? E como vocês, verdinhos chegaram tão rápido? Não tinham voltado pra Kalimdor?

- Porque ele ainda não está desmaiado, se é que você me entende. Precisamos esperar o mocinha ali dar conta do dito cujo. E... Bem, sabe como são os Zeppelins... Ainda estávamos em Tirisfal vendendo alguns trecos praqueles desmiolados que assombram o lugar... Mas olhe!

E ambos olharam para o local onde Siegrfried e seus animais se digladiavam com Clay Greymane.

A cena era feroz, e enquanto o urso golpeava a cabeça de seu alvo, a águia subia e descia em evoluções que visavam acertar-lhe os olhos e outras partes do rosto. O lobo mordia freneticamente as pernas da fera, que tentava a muito custo evadir-se dos ataques.
O caçador por sua vez, golpeava tanto quanto o urso, porém, mantendo uma segura distância das garras vorazes que procuravam atingir-lhe a esmo.


Num surto de selvageria, o Worgen livrou-se da sanha que o prendia, e levantou-se para ficar completamente ereto e uivar pedindo auxílio.

- HOJE NÃO, GREYMANE! - Um grito estridente ecoou e uma armada de renegados saiu dos arbustos, formando um círculo em volta do combate.

"Sylvannas Windrunner?" - Foi o pensamento de White, mas ele não pôde detecta-la, pois a massa de cadáveres reerguidos impedia a visualização de quem os comandava.

Clay aproveitou-se do momento de distração causado pelos Renegados, para brandir um ataque que arremessou o Urso para longe, fazendo com que seu agressor batesse contra as árvores e caísse inconsciente.

Siegrfried rosnou, e seu corpo pareceu aumentar de tamanho devido à bestialidade de seus movimentos. Lançou-se contra seu oponente, e seu lobo para auxiliá-lo no ataque, mordeu a pata direita do worgen. Suas armas de punho estavam atrapalhando, então o caçador desfez-se do equipamento, podendo assim segurar com mais firmeza os braços de Clay.


- Chris, é agor... Aaaaaaaaaahrgh.

Numa reação inesperada, o worgen abocanhou o ombro de Siegrfried, cravando as presas em toda a extensão e envolvendo-lhe numa mordida severa.

Os goblins ao comando de Chris, não hesitaram em armar a jaula preparada para aquela ocasião, e em poucos instantes, posicionaram-na atrás do Worgen.

- Empurra o bicho pra dentro! AGORA elfinho pelado!

Siegrfried estava gritando desesperado, mas não havia opção, precisava empurrar o monstro ou sucumbiria ante aquelas presas cravadas em seu ombro, que gotejava cada vez mais o líquido róseo que o constituía.

- ANDA ELFO! - Era a voz de Cris, cada vez mais distante.

Em seu último esforço, um empurrão foi o suficiente para prender seu oponente em meio às barras do metal encantado, que logo fez com que o lobo perdesse as forças. Seu corpo no entanto, estava exausto devido ao uso imenso de foco, e sem se dar conta, caiu para trás cambaleante e exausto.

Embaixo de seu corpo caído, uma imensa poça de sangue começou a se formar enquanto o grupo de goblins pisoteava suas pernas para fechar a jaula antes que o monstro começasse a se arrastar para fora dela.